Última alteração: 2018-10-18
Resumo
Os fármacos paracetamol e propranolol são amplamente comercializados e podem atingir o ambiente aquático por meio de águas residuais, liberação de excreções animais e humanas, e processos de produção animal e veterinária. Pelo fato destas drogas exercerem atividade biológica, elas podem exercer efeitos em organismos aquáticos. Com o objetivo de avaliar os efeitos agudos e crônicos destes fármacos em uma espécie de peixe neotropical, foram quantificadas as atividades das enzimas lactato desidrogenase e colinesterases no tecido muscular de Phalloceros harpagos. Os machos e fêmeas sexualmente imaturas desta espécie (N= 450 indivíduos) foram coletados no entorno da reserva Serra do Japi (Cabreúva-SP, Brasil). No laboratório, foi realizada a aclimatação dos peixes (23±1°C, fotoperíodo 12h claro/12h escuro), aeração continua do meio (água mineral) e alimentação diária. Os ensaios foram baseados nas guidelines da OECD 203 (agudo) e 215 (crônico), sendo que os peixes foram individualmente colocados em recipientes plásticos com 250 ml de água mineral. Os peixes foram divididos em 6 grupos experimentais para cada ensaio, sendo 1 grupo controle e 5 expostos a diferentes concentrações de cada fármaco (N= 20/grupo no ensaio agudo, N= 15/grupo no crônico). Ao final dos ensaios, os animais foram eutanasiados e o músculo dorsal de cada animal foi removido, homogeneizado, centrifugado e o sobrenadante foi utilizado para a determinação das atividades enzimáticas (AChe, segundo ELLMAN et al.,1961; LDH, segundo VASSAULT, 1983) e do teor de proteína solúvel total segundo Bradford, 1976. Os dados foram analisados estatisticamente (ANOVA e Kruskal-Wallis, seguidos respectivamente dos testes de Dunnet e Dunn, nível de significância = 0,05). Na exposição aguda ao paracetamol, os resultados indicaram diminuição significativa na atividade da LDH para todas as concentrações do fármaco. Na exposição aguda ao propranolol este padrão não foi observado. Exposições crônicas a ambos os fármacos não causaram alterações significativas deste biomarcador. A inibição da LDH do músculo pode levar a uma redução na resposta muscular do peixe a estímulos, o que dificulta a captura de presas e a sua fuga dos predadores. Na exposição aguda ao propranolol houve acréscimo significativo na atividade das colinesterases, em animais expostos as concentrações de 1 µg L-1 e 1000 µg L-1. No entanto, para os peixes submetidos a exposição aguda ao paracetamol e expostos cronicamente a ambos os fármacos, não houve alterações significativas na atividade deste biomarcador. As colinesterases estão envolvidas no processo de neurotransmissão, estando presente no sistema nervoso central e junção neuromuscular. Este acréscimo da atividade de Che no músculo dorsal pode sugerir uma resposta do peixe ao estimulo aversivo provocado pela exposição ao propranolol, desencadeando uma resposta hipermetabólica, provavelmente porque as baixas concentrações utilizadas deste beta-bloqueador não foi capaz de bloquear a atividade enzimática das Che. Os resultados do presente estudo apontam para alterações da atividade enzimática em exposições agudas, incluindo concentrações ambientalmente relevantes, podendo acarretar alterações significativas no comportamento dos peixes, como fuga de predadores e comportamento alimentar. Os dados obtidos demonstram que os efeitos analisados são passíveis de ocorrer em ambientes naturais impactados, como consequências individuais e populacionais potencialmente deletérias.
Palavras-chave
Referências
BRADFORD, M. M. A rapid and sensitive method for the quantitation of microgram quantities of protein uitilizin the principle of protein-dye binding. Analytical Biochemistry, n. 72, p. 248-254, 1976.
ELLMAN, G., L.; COURTNEY, K., D, ANDRES, V.; FEATHERSTONE, R. M. A new and rapid colorimetric determination of acetylcholinesterase activity. Biochemical Pharmacology, v. 7, p. 88–95, 1961.
OCDE. OECD Guideline for testing of chemicals. Test 203: Fish, acute toxicity test, 1992.
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VASSAULT, A. Lactate dehydrogenase. UV-method with pyruvate and NADH. In: Bergmeyer HU (ed) Methods of enzymatic analysis, vol 3. Verlag Chemie, Weinheim, pp 118–126,1983.