Última alteração: 2019-10-07
Resumo
O acúmulo de gordura no fígado causado por excesso energético pode provocar um acúmulo de colágeno, o que pode evoluir para fibrose. Estes efeitos são promovidos pela desregulação de fatores que estimulam sua síntese e degradação, incluindo alterações em metaloproteinases (MMPs). Dieta adequada e exercício físico podem restaurar a homeostase no fígado, mas os efeitos em longo prazo das populares dietas com baixo teor de carboidratos e alto teor de gordura (LCHF) associadas ou não ao treinamento resistido (RT) ainda são controversos. Avaliou-se o efeito de 21 semanas de dieta LCHF, comparada à dieta padrão, associada ou não a RT em escada, sobre o remodelamento de matriz extracelular (MEC) e acúmulo de colágeno no fígado de 38 ratos. Após 11 semanas recebendo dieta controle (ST) ou LCHF, metade de cada grupo iniciou 12 semanas de treinamento (grupos RT-ST e RT-LC), enquanto a outra metade permaneceu sedentária (Sed-ST e Sed-LC). Analisamos o acúmulo de colágeno (COL-1, COL-3, TGFB1, CTGF) e remodelamento de MEC (MMP-2, MMP-9, TIMP-1, TIMP-2) por expressão gênica; a atividade enzimática de MMPs por zimografia; morfologia por histologia com coloração Picrosirius no fígado; e de transaminases (ALT e AST) no sangue por colorimetria.
No fígado, a dieta LCHF aumentou a expressão de TGFβ1, COL-1, COL-3, TIMP-1 e TIMP-3, sem alterar a expressão de CTGF, MMP-2 ou MMP-9, nos animais sedentários. Associada ao RT, a expressão de TGFβ1, TIMP-1 e TIMP-2 foi maior nos animais LCHF em relação ao controle treinado, e a de COL-1 e COL-3 foi menor em relação aos animais sedentários de mesma dieta, não havendo alteração nos outros genes. Quanto à atividade de metaloproteinases, houve um aumento de MMP-2 no grupo Sed-LC e a Pro MMP-2 reduziu no grupo RT-LC, em relação aos grupos Sed-ST e RT-ST, respectivamente . Apesar dessas alterações, a histologia com Picrosirius não indicou presença de fibrose em nenhum grupo. O nível da transaminase ALT foi maior no grupo Sed-LC e tanto ALT quanto AST diminuiram no grupo RT-LC, indicando que as lesões teciduais foram amenizadas pelo treinamento.
Esses resultados podem estar relacionados com a maior quantidade de gordura no fígado e resistência à insulina adquirida pelos animais LCHF, em resultados previamente publicados, acarretando lesões e alterações na estrutura do tecido. As modificações na dinâmica da MEC e atividade de transaminases indicam uma maior inclinação ao acúmulo de colágeno no fígado que, em tempo mais estendido, pode culminar em fibrose, já que as TIMPs não só possuem propriedade pró-fibróticas como também têm ação importante como inibidoras da resolução da fibrose, proporcionada pela MMP-2. Já para os animais com dieta LCHF associada ao treinamento, os resultados indicam que as lesões hepáticas foram reduzidas.
Portanto, a dieta LCHF desbalanceou vias gênicas e enzimáticas no fígado, o que pode gerar um impacto negativo sobre seu bom funcionamento. O treinamento resgatou, em partes, as vias estudadas em direção à normalidade.
Agências de Financiamento: FAPESP, CNPq e CAPES
Palavras-chave
Referências
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