Última alteração: 2019-10-07
Resumo
Quando crianças apresentam problemas no contexto escolar, é comum levantar questões sobre a qualidade dos vínculos familiares e especialmente sobre a qualidade da relação da criança com seu pai. O envolvimento paterno (EP) é um construto multidimensional que se refere às atividades diretas e indiretas do pai com ou em prol do filho, as quais contribuem para o aprendizado e desenvolvimento de habilidades por parte dos filhos, bem como para o bem-estar dos pais e mães. Para que este envolvimento seja de boa qualidade, é preciso que as interações do pai com seu filho demonstram um engajamento positivo, carinho, responsividade, controle da situação, cuidado e responsabilidade. A literatura aponta evidências de que características e condições do pai (como sua idade, escolaridade e a extensão de seu envolvimento), bem como características dos filhos (como sua idade) podem relacionar-se ao EP. Diante da importância de entender fatores que influenciam no EP, o presente estudo teve como objetivo verificar a qualidade do EP de pais brasileiros, bem como verificar a possível relação entre o EP e: (a) idade dos filhos, (b) idade dos pais, (c) escolaridade dos pais e (d) tempo de contato entre pais e filhos. Os participantes foram 40 homens brasileiros, pais de crianças entre 2 e 10 anos de idade, os quais residiam juntos. Os pais responderam a algumas perguntas sociodemográficas e ao Inventário de Envolvimento Paterno (IFI-BR), composto por nove subescalas: (a) Disciplina e Ensino de Responsabilidade, (b) Encorajamento Escolar, (c) Suporte à Mãe, (d) Sustento, (e) Tempo Juntos e Conversa, (f) Elogio e Afeto, (g) Desenvolvimento de Talentos e Interesses Futuros, (h) Leitura e Ajuda com Tarefas Escolares e (i) Dar Atenção. No geral, os pais avaliaram o envolvimento com seus filhos como sendo de boa qualidade, com pontuações médias para cada uma das nove subescalas variando entre 4,5 a 5,3 de um máximo possível de 6 pontos. Pais com filhos mais velhos relataram passar menos tempo junto e conversando (ρ = - 0,44, p = 0,005) e havia uma tendência de oferecer menos elogios e afeto para filhos mais velhos (ρ = - 0,28, p = 0,08). Pais com maior escolaridade relataram se envolver menos com questões de disciplina do que pais com menor escolaridade (ρ = - 0,31, p = 0,055). Por fim, havia uma tendência entre pais que relataram passar mais tempo com seus filhos de indicarem que dão mais suporte à mãe de seus filhos (ρ = 0,29, p = 0,07). A idade do pai não estava relacionada com variações no seu envolvimento. Desta forma, foram encontrados alguns efeitos de idade do filho, escolaridade do pai e tempo que o mesmo passava com seu filho sobre seu envolvimento, que devem ser considerados quando se pensa em estratégias para fortalecer a relação pai-filho. Será importante confirmar estes resultados com uma amostra maior de participantes, mas é importante notar o alto padrão de envolvimento por parte dos pais desta amostra, apontando para a valorização deste papel, em todas as dimensões.
Palavras-chave
Referências
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