Última alteração: 2019-10-12
Resumo
O ingresso feminino no mercado de trabalho a partir da década de 1960 forjou discussões sobre o equilíbrio entre a esfera laboral e familiar e também sobre a divisão sexual do trabalho. O arranjo familiar hegemônico vigente era aquele com o núcleo formado por um casal heterossexual, em que o homem ocupava o papel de provedor e a mulher o de cuidadora, formando uma família biparental. Quase 70 anos depois, esse arranjo familiar ainda é o mais comum no Brasil, entretanto esses papéis estão um pouco mais difusos. A esfera do trabalho também sofreu mudanças. Novos modelos surgiram e passaram a afetar as relações intrafamiliares dos sujeitos. O trabalho a partir do domicílio (home-office) é um exemplo desses novos arranjos de trabalho, o qual surgiu na década de 1970 e vem tendencialmente aumentando no país. Poucos estudos brasileiros investigaram os impactos deste modelo no equilíbrio familiar biparental. O presente estudo teve como objetivo comparar trabalhadores em relação à aspectos psicológicos, satisfação com o trabalho, percepção de apoio emocional recebido do(a) parceiro(a); e a divisão de tarefas domésticas entre parceiros(as). Coletou-se dados com 68 participantes, 27 mulheres e 7 homens que trabalhavam em ambiente centralizado e 28 mulheres e 6 homens que trabalhavam a partir do domicílio, com idades entre 18 e 56 anos. Os participantes responderam a um questionário online divulgado em redes sociais, constituído por dados de caracterização, Critério Brasil, Escala de Qualidade de Vida, Escala de Autoestima, Escala de Satisfação com o Trabalho e Escala de Divisão de Tarefas. Os dados foram analisados no SPSS versão 20.0 de acordo com as instruções do instrumento. Para comparar os grupos, foi conduzido o teste t para amostras independentes. Os resultados indicaram que aqueles que trabalhavam em home office, em média, estavam mais satisfeitos de modo geral com seu trabalho (M=3,65 DP=0,87) e sentiam possuir mais oportunidades para usar suas capacidades (M=3,68 DP=0,8), do que o grupo de trabalhadores que atuavam em locais centralizados (satisfação geral com o trabalho - M=3,24 DP=1,32; oportunidade de usar suas capacidades - M=3,21 DP=1,27). Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto à qualidade de vida, autoestima, apoio emocional do parceiro e divisão de tarefas. Corroborando com a literatura, os trabalhadores em home-office pareciam sentir-se mais satisfeitos com seus trabalhos, o que pode se dar devido a flexibilidade possibilitada por esse modelo. Porém, diferentemente de estudos anteriores esses trabalhadores sentiam que tinham mais oportunidades para usar suas capacidades, podendo demonstrar que a distância de um espaço centralizado permite uma maior individualização do trabalho. A amostra foi composta majoritariamente por mulheres, o que pode explicar a falta de diferenças significativas nas divisões de tarefas. Estudos futuros com uma amostra maior de trabalhadores do sexo masculino são sugeridos, assim como pesquisas que correlacionem os dados para obtenção de medidas mais apuradas sobre aspectos do estado psicológico.
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