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A construção da violência nas relações de intimidade entre adolescentes – subsídios para a saúde
Ana Paula França de Oliveira, Diene Monique Carlos

Última alteração: 2019-10-01

Resumo


Introdução: Nos últimos anos, estudos têm denotado importante relevância à violência nas relações de intimidade (VRI) entre os adolescentes. Tal relevância se faz por alguns fatores, entre eles o estabelecimento precoce de relações de intimidade não saudáveis na vida das pessoas.  No Brasil, um importante estudo realizado em dez capitais sobre a violência nas relações afetivo-sexuais de ‘ficar’ ou de namorar entre jovens de 15 a 19 anos de idade em 2011, revelou dados alarmantes - 86,9% já foram vítimas e 86,8% já praticaram algum tipo de violência durante o relacionamento, seja física, sexual ou psicológica. Compreender como os adolescentes vivenciam suas relações íntimas e como a violência emerge nestas relações, é o primeiro passo para ações de prevenção e enfrentamento à VRI. Objetivos: conhecer e analisar as percepções das adolescentes frente à VRI. Método: Pesquisa qualitativa, sendo a coleta de dados realizada por meio de questionário para caracterização sociodemográfica, acadêmica, familiar e de relações de intimidade; grupos focais e diário de campo no mês de junho de 2019. Participaram 10 estudantes do sexo feminino do 8º e 9º ano de uma escola estadual de ensino fundamental e médio. A análise se deu por meio de análise temática, ancorada no conceito de compreensão ecológica da violência. Resultados: Das participantes, 70% (n=7) possuíam 14 anos; 60% (n=6) não moravam com o pai; 90% (n=9) já ficaram/namoraram; todas referiram não ter sido vitima de VRI e uma adolescente referiu ser agressora. Emergiram duas categorias temáticas – “Já é meio que determinado”; e “Eu fico o tempo todo no celular, quero saber o que ele faz sempre”. Na primeira categoria, foram discutidas as construções das relações íntimas entre adolescentes. A princípio, citam o “ficar” como primeiro contato, sem compromisso. Posteriormente, de forma “natural”, avança-se para relações intituladas como “ficar sério”, caracterizadas pela exclusividade. Neste âmbito, é evidente a ausência de diálogo e acordo entre os parceiros e início de situações permeadas pela agressividade e violência. Na segunda categoria, ficou evidenciada a ausência de confiança, articulada a alguns fatores, como baixa autoestima e não sensação de respeito na relação. Existe a necessidade de controle do outro e a existência de relações homoafetivas, que não passam pela experimentação mas pela aversão ao gênero masculino. Conclusões: percebeu-se a necessidade de trabalhar questões junto às adolescentes relacionadas à construção de relações saudáveis, como autoestima; igualdade de gênero; comunicação não-violenta. A articulação saúde-escola é essencial para avançar neste conhecimento e para a prevenção da VRI entre adolescentes de forma multidimensional.


Palavras-chave


adolescente; violência por parceiro íntimo; serviços de saúde escolar

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