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INTERAÇÕES FAMILIARES DE ADOLESCENTES QUE SE AUTOLESIONAM - UM OLHAR NECESSÁRIO
Luiza Cesar Riani Costa, Diene Monique Carlos

Última alteração: 2019-10-01

Resumo



Introdução: A compreensão da adolescência deve ultrapassar concepções universalizantes e cristalizadas, considerando que depende do momento histórico, da cultura e da história de vida dos sujeitos. No adolescer ocidental atual, um fenômeno que tem se mostrado recorrente e recebido crescente atenção é o da autlesão não suicida (ALNS). A ALNS pode ser definida como lesão deliberada que resulta na destruição direta ou alteração do tecido corporal de quem a praticou, com ou sem intenção do suicídio. Objetivo: Considerando a grande demanda de cuidado e atenção à ALNS, assim como as lacunas na literatura, o objetivo do presente estudo foi identificar e analisar como se dão as interações familiares na concepção de adolescentes que se autolesionam. O referencial teórico utilizado foi a teoria psicanalítica de Winnicott. Método: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, com coleta de dados realizada por meio de encontros individuas utilizando o recurso Desenho-Estória com Tema. As participantes do estudo foram 8 adolescentes entre 12 e 14 anos que se autolesionam, de uma escola de um município do interior de São Paulo. Cada adolescente participou de dois a cinco encontros individuais, sendo que somente o primeiro foi utilizado para análise de dados. O primeiro encontro contou com o levantamento socioeconômico, o Desenho-Estória com Tema, e a livre expressão dos conteúdos emergentes. No último encontro foi feita devolutiva, encerramento, e encaminhamentos necessários a serviços de saúde. Resultados: As concepções acerca das interações familiares por adolescentes que se autolesionam foram em sua maioria de cunho negativo, sendo que a invalidação de sentimentos, o isolamento familiar, a culpa, a falta de comunicação e o castigo físico foram apontados como alguns de seus elementos. Conclusão: A partir dos relatos das adolescentes, observa-se que a ALNS é um fenômeno múltiplo que merece atenção e cuidado na área da saúde da criança e do adolescente, e que os relacionamentos intrafamiliares disfuncionais aparecem como um dos elementos mais importantes para a manutenção do comportamento. A aproximação das interações familiares por adolescentes que se autolesionam aponta caminhos para intervenções futuras, além de contribuir para o entendimento do fenômeno em si. O presente estudo destaca a importância de trabalhar as interações familiares, e aponta possibilidades de que estudos futuros trabalhem com a perspectiva dos familiares. Destaca-se que a estratégia metodológica adotada permitiu que as participantes falassem em primeira pessoa sobre suas interações familiares, dando voz as pessoas diretamente envolvidas no fenômeno.


Palavras-chave


autolesão não suicida; adolescência; Winnicott; Desenho-Estória com Tema; interações familiares

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